Quem é o Senhor do Bonfim
A Oração do Senhor do Bonfim é rezada por quem quer agradecer e por quem pede um bom desfecho: para uma doença, para uma viagem, para uma causa que está no meio do caminho. O Senhor do Bonfim não é um santo: é Jesus Cristo crucificado, sob um título que veio de Portugal e criou raiz na Bahia como em nenhum outro lugar do mundo.
A imagem está na Basílica Santuário do Senhor do Bonfim, no alto da Colina Sagrada, na península de Itapagipe, em Salvador. É o endereço de fé mais visitado do estado, e a festa dele, em janeiro, faz a cidade parar.
O que significa Bonfim
O nome responde sozinho por que essa devoção consola tanta gente: Bonfim é bom fim.
Não se trata de sorte nem de final feliz. Trata-se do fim que Jesus teve na cruz, que a fé cristã lê como a passagem para a ressurreição, e do pedido de que a nossa própria travessia final seja assim. A oração tradicional diz isso com todas as letras: que o bom fim de todo o Vosso sofrimento e morte de cruz seja o penhor da nossa salvação e nos conduza a uma boa e santa morte.
É por isso que essa oração aparece tanto ao lado de leitos de hospital e em casas onde alguém está muito doente. Pedir um bom fim é pedir para não morrer sozinho, sem paz e sem Deus.
O que se pede na oração do Senhor do Bonfim
A oração tem uma ordem que vale notar. Ela não começa pedindo: começa agradecendo.
Quem reza se coloca aos pés da imagem, contempla o amor de Jesus que deu a vida pela nossa salvação, e agradece. Só depois pede perdão pelos pecados e, então, apresenta a graça de que precisa, sempre com a condição de que seja da vontade de Deus. E termina no pedido do bom fim.
Essa ordem, agradecer antes de pedir, explica uma característica única do santuário do Bonfim: ele é conhecido menos pelos pedidos e mais pelos agradecimentos.
A promessa feita no meio de uma tempestade
A devoção chegou ao Brasil pela mão de um homem com medo de morrer.
Theodózio Rodrigues de Faria era capitão de mar português, natural de Setúbal, e devoto do Senhor do Bonfim da sua terra. Pego por uma tempestade no mar, prometeu que, se sobrevivesse, traria consigo as imagens do Senhor do Bonfim e de Nossa Senhora da Guia.
Sobreviveu e cumpriu. A imagem chegou a Salvador em 18 de abril de 1745, num Domingo de Páscoa. A construção da capela no alto da colina começou no ano seguinte, e ficou pronta em 1772. Em 24 de junho de 1754, com o interior já concluído, as duas imagens subiram a colina em procissão, com povo atrás.
Repare de novo no fio da história: um homem que pediu um bom fim para si mesmo no meio de uma tempestade deu origem ao maior santuário de agradecimento do país.
A fitinha do Bonfim e a medida de 47 centímetros
Quase todo brasileiro já amarrou uma no pulso, e quase ninguém sabe de onde ela vem.
A fita nasceu em 1809, criada pelo tesoureiro da Devoção do Senhor do Bonfim, Manoel Antônio da Silva Serva, que era também livreiro e fundou a primeira tipografia da Bahia. O objetivo era prático: arrecadar recursos para a manutenção do santuário.
E o tamanho não é arbitrário. Os 47 centímetros da fita são a medida do braço direito da imagem do Senhor do Bonfim no altar. Por isso ela se chamava, no começo, medida do Bonfim.
Outra coisa mudou com o tempo: a fita original era branca, feita de cetim, linho ou algodão, bordada à mão, e era usada no pescoço, como um colar, onde os devotos penduravam medalhas e imagens de santos. O pulso e as cores vieram depois.
A Sala dos Milagres
Ao lado da Basílica existe uma sala que é, ela mesma, um documento da fé do povo. Os devotos deixam ali objetos, fotografias, roupas, muletas e réplicas de partes do corpo, cada um marcando uma graça que atribuem ao Senhor do Bonfim.
Não é um museu montado por alguém: foi feito por milhares de pessoas, uma peça por vez, ao longo de séculos. Quem entra pela primeira vez normalmente fica calado.
Quando é a festa do Senhor do Bonfim
A data muda a cada ano e segue uma regra simples: a festa é no segundo domingo depois do dia 6 de janeiro, o Dia de Reis. Antes dela vem a novena, com missas todas as noites no santuário.
Na quinta-feira anterior a esse domingo acontece a procissão mais conhecida do Brasil depois das de Aparecida: a Lavagem do Bonfim. O cortejo sai da Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia, no Comércio, e sobe até a Colina Sagrada, num percurso de cerca de oito quilômetros, com a lavagem das escadarias e do adro do santuário.
Vale saber que a festa não cai em janeiro por causa da chegada da imagem, que foi em abril. A data foi transferida para esse período do ano para que mais gente pudesse participar, no tempo das férias.
Quando se reza ao Senhor do Bonfim
Reza-se para agradecer, e essa é a marca da devoção: por um exame que deu certo, por uma viagem que terminou bem, por um ano que passou.
Reza-se antes de uma cirurgia e ao longo de um tratamento. Reza-se por quem está muito doente, pedindo o bom fim que dá nome à devoção. Reza-se em janeiro, durante a novena e a festa.
E reza-se ao amarrar a fita, que muita gente faz sem saber que está segurando na mão a medida do braço daquela imagem.