Quem foi São Patrício
Patrício nasceu na Britânia romana no fim do século IV, em família cristã, e não tinha nenhum plano de virar missionário.
O plano dele foi interrompido aos dezesseis anos.
Ele morreu em 17 de março de 461, na Irlanda, e é o padroeiro daquele país. É nesse dia que a Igreja o celebra.
Ele voltou para o povo que o escravizou
Aos dezesseis anos, Patrício foi capturado por piratas irlandeses, levado para a Irlanda e vendido como escravo. Passou seis anos cativo, cuidando de rebanho, longe de casa e sem previsão de sair.
Foi ali, na escravidão, que ele começou a rezar de verdade. Ele mesmo conta isso num texto que escreveu depois, chamado Confissão, e que assina como Patricius.
Depois de seis anos, conseguiu fugir e voltou para a família. Estudou, foi ordenado sacerdote e depois bispo. E então tomou a decisão que faz dele quem ele é.
Voltou para a Irlanda.
Voltou para a ilha de onde tinha fugido, para o povo que o havia sequestrado e vendido, e passou o resto da vida ali, pregando o Evangelho para os descendentes de quem o havia acorrentado.
Não existe muita coisa parecida com isso na história dos santos.
A oração conhecida como Couraça
A oração atribuída a Patrício é uma das mais impressionantes da tradição cristã. Ela é longa, tem estrutura de ladainha e é conhecida como Couraça de São Patrício.
Começa assim, e repete a fórmula várias vezes: levanto-me, neste dia que amanhece, por uma grande força, a invocação da Trindade.
Depois vai listando de onde vem essa força: do nascimento de Cristo e do batismo dele, da crucificação, da ressurreição. E segue por uma lista que inclui a força do céu, o clarão da lua, o esplendor do fogo, a pressa do relâmpago, a profundeza dos mares, a firmeza da terra e a solidez da rocha.
É uma oração que olha para o mundo inteiro e vê nele a força de Deus. Quem rezou aquilo primeiro era alguém que tinha passado seis anos ao ar livre, cuidando de animais.
E ela termina exatamente como começou, voltando à invocação da Trindade. É um círculo fechado de propósito.
Lorica quer dizer couraça
O nome da oração vem do latim.
Lorica era a couraça do soldado romano, a peça de metal ou de couro que protegia o peito. É a mesma palavra que aparece na Bíblia quando São Paulo fala de vestir a armadura de Deus.
Chamar essa oração de Couraça, ou de Lorica, diz o que ela pretende ser: uma proteção vestida, algo que se põe no corpo antes de sair. E foi assim que ela circulou por séculos, rezada de manhã, antes de encarar o dia.
A tradição conta que ela era muito usada na Idade Média por quem ia para o perigo.
Cristo comigo, Cristo à minha frente
Há um trecho da Couraça que ficou mais conhecido do que a oração inteira, e é fácil entender por quê.
Ele diz: Cristo comigo, Cristo à minha frente, Cristo atrás de mim, Cristo em mim, Cristo embaixo de mim, Cristo acima de mim, Cristo à minha direita, Cristo à minha esquerda, Cristo ao me deitar, Cristo ao me sentar, Cristo ao me levantar.
E não para no corpo de quem reza. Continua: Cristo no coração de todos a quem eu falar, Cristo na boca de todos os que me falarem, Cristo em todos os olhos que me virem, Cristo em todos os ouvidos que me ouvirem.
Repare no movimento. A primeira parte cerca a pessoa por todos os lados, como uma armadura de verdade. A segunda parte muda de direção e sai dela para as pessoas com quem ela vai se encontrar.
É proteção que não isola.
O trevo e o 17 de março
Duas coisas ligadas a Patrício ficaram mais conhecidas do que ele.
A primeira é o trevo de três folhas. Conta a tradição que ele o usava para explicar a Trindade a quem nunca tinha ouvido falar dela: três folhas, uma planta só.
A segunda é a data. O 17 de março, que é o dia da morte dele, virou festa em vários países, com desfile, roupa verde e comemoração de rua, muitas vezes sem nenhuma ligação com a fé. É uma das poucas memórias de santo que o mundo inteiro conhece pelo nome, mesmo quem não sabe quem ele foi.
Debaixo de tudo isso continua havendo um bispo que foi escravo e voltou.
Quando se reza a Couraça de São Patrício
Reza-se de manhã, e a própria oração diz isso: levanto-me, neste dia que amanhece. Ela foi feita para ser a primeira coisa do dia.
Reza-se antes de enfrentar algo difícil, que é o uso que a tradição registra.
Reza-se pedindo proteção, e vale prestar atenção em como esta oração pede: ela não pede que o perigo desapareça, pede a presença de Cristo em volta de quem reza e também nas pessoas que essa pessoa vai encontrar.
E reza-se em 17 de março, que é o dia dele.
Para quem quiser rezar só um trecho, o mais usado é o Cristo comigo, Cristo à minha frente, que cabe de cabeça e leva quinze segundos.