Quem foi São Jorge
São Jorge foi um soldado romano que morreu mártir por não abandonar a fé, no início do século IV, na região onde hoje é Israel. Ficou conhecido como o santo guerreiro, é celebrado em 23 de abril e é um dos santos mais amados do Brasil, especialmente no Rio de Janeiro. A imagem dele a cavalo, enfrentando um dragão, é uma das mais reconhecidas do mundo cristão.
O que se sabe da história dele
Aqui vale a honestidade que essa devoção merece: sabe-se pouco, e a própria Igreja disse isso muito cedo.
O que a tradição transmite é que Jorge era soldado do exército do imperador Diocleciano, que se recusou a participar da perseguição aos cristãos, foi preso, torturado e decapitado por volta do ano 303, em Lida, na província romana da Palestina, a cidade que hoje se chama Lod e fica perto de Tel Aviv. Nasceu provavelmente na Capadócia, região da atual Turquia.
E aqui está o documento que impressiona: já no fim do século V, num texto atribuído ao Papa Gelásio, São Jorge aparece entre os santos que são justamente venerados pelos homens, mas cujos atos são conhecidos somente por Deus. Ou seja: quinze séculos antes de qualquer discussão moderna, a Igreja já reconhecia que a devoção a ele era legítima e que os detalhes da vida dele não estavam documentados. A veneração é antiga e continua; o relato dos feitos é que se perdeu.
A lenda do dragão e o que ela quer dizer
A cena mais famosa dele nunca aconteceu como história. A luta contra o dragão é lenda, e ela nasceu séculos depois da morte dele, ganhando a forma que conhecemos numa coleção medieval de vidas de santos, a Legenda Dourada, do século XIII.
Isso não a torna inútil, e é importante entender por quê. A lenda é uma imagem: o soldado que enfrenta a besta é o cristão que enfrenta o mal, e a lança que atravessa o dragão é a fé que não recua. Foi assim que a Idade Média contou, em desenho, aquilo que a fé afirma em palavra. Quem reza a São Jorge não reza a um matador de dragões: reza a um homem que preferiu morrer a negar Cristo.
O que existe hoje
O túmulo dele está em Lod, a antiga Lida, em Israel, e o lugar é venerado desde os primeiros séculos. Sobre as ruínas da casa e do sepulcro foi construído um templo, hoje da tradição grega ortodoxa, e a tradição atribui a primeira construção ao tempo do imperador Constantino.
Lod é chamada até hoje de terra de São Jorge, e o lugar segue vivo: em 2024, os cristãos da cidade enviaram ao Papa os votos de feliz dia do nome dele, justamente em 23 de abril.
No Brasil, o que existe é de outra ordem, e é enorme: **no estado do Rio de Janeiro, 23 de abril é feriado**, e a devoção a ele atravessa a cidade. Ele é padroeiro dos escoteiros, da Cavalaria do Exército Brasileiro e de um dos maiores clubes de futebol do país. Existem paróquias dedicadas a ele em praticamente todo estado brasileiro.
Onde visitar
Em Israel, Lod fica a poucos minutos do aeroporto internacional de Tel Aviv, e é uma visita que quase nenhum roteiro de Terra Santa inclui, embora seja o lugar do túmulo de um dos santos mais populares do mundo. Quem chega ao país pela manhã e tem meio dia livre consegue ir e voltar.
No Brasil, o 23 de abril no Rio de Janeiro é uma experiência por si: as Missas do dia enchem, há fila para entrar nas paróquias dedicadas a ele, e a cidade inteira muda de ritmo. Se você quiser ver devoção popular católica em estado puro, é uma das melhores datas do calendário brasileiro.
Quando a Igreja o celebra
A memória de São Jorge é em 23 de abril, dia da morte dele. Existe também 3 de novembro, ligado à dedicação do templo construído sobre o túmulo dele em Lida.
No calendário universal a celebração é de grau simples, o que confunde algumas pessoas e às vezes é lido como se a Igreja tivesse diminuído a devoção. Não foi isso: quando o calendário foi revisado, os santos com relatos históricos menos documentados tiveram o grau ajustado, e São Jorge continuou santo, continuou no calendário e continuou sendo celebrado. Em muitos lugares, inclusive no Brasil, a festa dele é celebrada com grau maior, porque ele é padroeiro local.
Coisas que pouca gente sabe
Ele é padroeiro de países inteiros, e de mais de um: Inglaterra, Portugal e Geórgia estão entre eles. A cruz vermelha sobre fundo branco da bandeira inglesa é a cruz de São Jorge.
O túmulo dele fica a poucos quilômetros do aeroporto por onde passa quase todo peregrino que chega a Israel, e quase nenhum sabe.
No Rio de Janeiro, o padroeiro oficial da cidade é São Sebastião, e não São Jorge. A devoção a São Jorge é tão forte que muita gente inverte os dois.
E há uma coincidência de nomes que rendeu um gesto bonito: o Papa Francisco se chamava Jorge, e por isso o dia do nome dele era 23 de abril, festa de São Jorge.
O que muita gente acredita e não é verdade
A primeira é a mais repetida: que a Igreja teria tirado São Jorge do calendário ou deixado de considerá-lo santo. Isso não aconteceu. Ele está no calendário, é celebrado em 23 de abril em todo o mundo, e é padroeiro reconhecido de vários países e dioceses. O que mudou, numa revisão do calendário, foi o grau da celebração universal, por causa da falta de documentos sobre a vida dele, e isso é bem diferente de deixar de ser santo.
A segunda é o dragão, e já falamos dela: é lenda medieval, não fato histórico, e continua valiosa como imagem daquilo que ele fez de verdade, que foi enfrentar a morte sem negar a fé.
A terceira precisa ser dita com respeito, porque toca a vida religiosa de muita gente no Brasil. Aqui, a devoção a São Jorge se encontrou com tradições afro-brasileiras, e em algumas delas ele é associado a Ogum. Para a Igreja Católica, São Jorge é um mártir cristão do século IV, venerado como santo, e é a ele que a oração católica se dirige. Quem chega a esta página vindo de outra tradição é bem-vindo, e o que oferecemos aqui é o que a Igreja ensina sobre ele, sem disputa e sem desprezo por ninguém.
Como e quando rezar
Esta é a oração de quem precisa de coragem. Ela serve para o dia da entrevista, para a véspera da cirurgia, para a viagem que dá medo, para o trabalho perigoso, para a noite em que a ameaça é real e não imaginária.
Reze pedindo o que ele teve, e não o que a lenda diz que ele fez: firmeza para não negar o que se acredita quando negar seria mais fácil. É isso que faz dele guerreiro, e é isso que a oração pede.
No dia 23 de abril, se puder, vá à Missa. A festa na rua é bonita, e o começo dela é no altar.