Quem foram Cosme e Damião
A Oração de Cosme e Damião é rezada por famílias com crianças, por quem está doente e por quem trabalha na saúde. Eles são dois: irmãos gêmeos, médicos, mortos por causa da fé no começo do século IV.
Nasceram na Arábia, por volta de 260, em família de posses, e estudaram medicina na Síria. Ficaram conhecidos pela competência e por uma decisão incomum: atendiam de graça, sobretudo os pobres.
A Igreja celebra os dois em 26 de setembro. No Brasil, a festa popular acontece em 27, e a diferença entre as duas datas tem explicação, que vem adiante.
O apelido deles quer dizer sem prata
Cosme e Damião ganharam, ainda em vida, um apelido que os define melhor que qualquer título: anárgiros.
É palavra grega e quer dizer sem prata. Foi assim que ficaram conhecidos porque cuidavam dos doentes sem aceitar pagamento. Não era desconto nem cortesia para alguns: era o modo de trabalhar dos dois.
Guarde isso, porque é o coração da devoção. Antes de serem os santos dos doces e das crianças, Cosme e Damião foram dois profissionais que atenderam quem não tinha dinheiro para pagar.
Os ovos que quase separaram os irmãos
Há um episódio na história deles que é humano de doer, e quase nunca é contado.
Uma mulher chamada Paládia, curada pelos dois, quis agradecer e ofereceu ovos como presente. Damião aceitou, dizendo que recebia em nome de Cristo. Cosme não concordou: para ele, aceitar qualquer coisa contrariava o que os dois haviam decidido.
Ficou tão contrariado que pediu para não ser enterrado junto do irmão.
Não é uma história edificante de irmãos perfeitos, e é justamente por isso que vale contá-la: dois santos discutiram por causa de uma dúzia de ovos, porque cada um levava a sério, do seu jeito, o compromisso de não cobrar. A tradição guarda que foram sepultados juntos.
Acusados de feitiçaria pelo imperador
Aqui está a ironia mais forte da história deles.
Na perseguição do imperador Diocleciano, os dois foram presos, e a acusação registrada não foi apenas de serem cristãos: foram acusados de feitiçaria, porque as curas que faziam pareciam inexplicáveis a quem os acusava.
Não negaram a fé. Foram decapitados, e a devoção a eles começou a crescer logo depois, no Oriente, entre gente que se lembrava de ter sido atendida por eles.
Vale registrar isso com clareza: os dois foram mortos sob acusação de praticar magia, exatamente o que a fé deles rejeitava.
O que se pede na oração de Cosme e Damião
A oração católica a eles é uma das mais bem construídas que existem, e o que ela pede diz tudo.
Primeiro, ela pede a bênção sobre os médicos e farmacêuticos, e a cura do corpo. Depois, pede algo que surpreende quem só conhece a fama popular da devoção: que a alma seja fortalecida contra a superstição e contra todas as práticas do mal.
Em seguida vem a parte das crianças: que a inocência e a simplicidade dos dois acompanhem e protejam as crianças, e que a alegria de consciência tranquila que eles tinham repouse também em quem reza.
E fecha citando Jesus: deixai vir a mim os pequeninos, porque deles é o Reino do Céu.
É uma oração que pede saúde, proteção às crianças e retidão de fé, na mesma respiração.
Por que a Igreja celebra em 26 e o povo em 27
Esta é a dúvida mais buscada sobre eles, e a resposta é simples.
A data litúrgica, no calendário da Igreja, é 26 de setembro. Ela é antiga: ficou ligada à basílica que o Papa Félix IV mandou construir em honra dos dois em Roma, entre 526 e 530.
No Brasil, a festa popular consolidou-se em 27 de setembro, e é nesse dia que a maior parte das famílias distribui doces. As duas datas convivem: quem quiser rezar na data da Igreja reza em 26, e quem tem o costume de casa segue em 27.
Os doces e as crianças
A tradição brasileira de distribuir doces às crianças em nome deles é uma das mais antigas e mais bonitas da religiosidade daqui.
Ela se apoia no padroado que a devoção lhes deu sobre as crianças, e no jeito dos dois: gente que dava sem cobrar. Distribuir doce é repetir, em miniatura e para os pequenos, o gesto que os fez santos.
Em muitas casas, os doces são preparados como promessa: alguém pediu por uma criança doente e prometeu distribuir se ela ficasse boa. É devoção de mãe e de avó, e atravessou gerações assim.
Quando se reza a Cosme e Damião
Reza-se por criança doente, que é a intenção mais forte desta devoção, e por criança em geral: filho, neto, afilhado.
Reza-se por quem trabalha na saúde, e vale lembrar que eles são padroeiros de médicos, cirurgiões, farmacêuticos, parteiras e das faculdades de medicina.
Reza-se em 26 de setembro, na memória da Igreja, e em 27, na festa das casas.
E reza-se por irmãos, que é uma intenção que combina com eles: dois irmãos que trabalharam juntos a vida inteira, discutiram por causa de uma dúzia de ovos e terminaram sepultados no mesmo lugar.