Quem foi Santo Hipólito
Santo Hipólito foi presbítero da Igreja de Roma no começo do século 3, e um dos escritores mais produtivos do cristianismo daquele tempo.
A vida dele tem uma curva difícil de resumir: brigou com o Papa, chegou a encabeçar um cisma, foi condenado ao trabalho forçado nas minas da Sardenha, reconciliou-se com a Igreja e morreu mártir. É venerado como santo desde então.
A origem, com as datas
Ele viveu e trabalhou em Roma, escrevendo em grego, num tempo em que a comunidade cristã da cidade ainda era pequena e perseguida.
O conflito começou com o Papa Calisto. Hipólito acusava o Papa de afrouxar a disciplina sobre casamento e penitência, e de abandonar a tradição recebida dos apóstolos. Foi para sustentar essa posição que ele escreveu o tratado que ficou conhecido como Tradição Apostólica, datado em torno do ano 215.
O rompimento e o cisma
Hipólito não parou na crítica: passou a agir como cabeça de uma comunidade separada, contra Calisto e depois contra o Papa Ponciano.
Foi o cisma mais grave da Igreja de Roma naquele século, e ele durou anos. O que veio depois é que dá o tamanho da história.
As minas da Sardenha
Numa nova onda de perseguição, o poder imperial deportou os dois lados do conflito para as minas de trabalhos forçados da Sardenha: o Papa Ponciano e Hipólito.
Condenação às minas era sentença de morte lenta. Os dois morreram lá, em 235, e a tradição registra que Hipólito abandonou a própria posição e se reconciliou com a Igreja de Roma antes do fim, encerrando o cisma. Os corpos foram trazidos de volta para Roma e sepultados com honra de mártir.
De um texto dele vem a Oração Eucarística II
Aqui está o detalhe que quase nenhum católico brasileiro conhece, e que aparece em toda missa.
A Tradição Apostólica traz uma oração eucarística, atribuída a ele, considerada a mais antiga oração eucarística escrita que chegou até nós. Ela tem a estrutura que a missa mantém hoje: diálogo inicial, ação de graças, narração da instituição, memorial, invocação do Espírito e doxologia final.
Quando a Igreja renovou o Missal, essa anáfora antiga foi retomada e reelaborada, e virou a Oração Eucarística II, que é a mais rezada nas missas de dia comum. Ou seja: parte do que se ouve na missa de terça-feira atravessou dezoito séculos.
Onde visitar
Em Roma, o nome dele está ligado à área de sepultamento da via Tiburtina, onde o corpo foi colocado depois do retorno da Sardenha, perto do lugar em que hoje está a Basílica de São Lourenço fora dos Muros.
No Brasil não existe santuário dedicado a ele. O caminho mais direto é outro, e é diário: acompanhar a Oração Eucarística II na missa sabendo de onde ela vem.
Quando a Igreja celebra
A memória é em 13 de agosto, e ele é celebrado junto com o Papa São Ponciano, o adversário com quem dividiu a mina e a morte. A Igreja pôs os dois no mesmo dia, e isso é uma lição por si só.
Coisas que pouca gente sabe
Em português, o tratamento certo para o nome dele é Santo, e não São, porque a palavra vem antes de nome começado com H. Muita lista escreve São Hipólito, e é por isso que ele fica difícil de achar.
A Tradição Apostólica tem 43 capítulos e mistura oração com norma de disciplina, o que a torna a melhor fotografia que existe da vida cristã em Roma no século 3.
E há o dado que impressiona: ele é um dos casos raríssimos de alguém que esteve em cisma contra o Papa e é venerado como santo mártir pela mesma Igreja.
O que muita gente acredita e não é verdade
A tradição posterior misturou a figura dele com a de um soldado que aparece na história de São Lourenço, também chamado Hipólito. São figuras diferentes, e a confusão nasceu séculos depois.
Também é comum imaginar que quem entra em cisma fica fora da Igreja para sempre. O caso dele diz o contrário: houve reconciliação, e o nome dele está no calendário até hoje.
Como e quando rezar
Reza-se a Santo Hipólito por unidade na Igreja e nas famílias, e por quem está afastado depois de uma briga que ninguém sabe mais como desfazer.
É também o santo de quem estuda, escreve e ensina a fé, por causa da obra dele, e de quem trabalha em condição desumana, por causa das minas da Sardenha.