Quem foi Santa Maria Madalena
Santa Maria Madalena foi a mulher que seguiu Jesus desde a Galileia, esteve junto à cruz quando quase todos fugiram e foi a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado. Ela é a mulher mais citada nos Evangelhos depois de Nossa Senhora, aparece em doze passagens, e é celebrada em 22 de julho como Apóstola dos Apóstolos.
O que a Bíblia diz sobre ela
O nome dela não é sobrenome de família: Madalena quer dizer de Magdala, a cidade onde nasceu, na beira do mar da Galileia.
O Evangelho de Lucas a apresenta entre as mulheres que acompanhavam Jesus e o sustentavam com os próprios bens, e diz que dela saíram sete demônios. Guarde esse detalhe, porque ele é a origem de uma confusão que vamos desfazer mais adiante: a Escritura diz que ela foi curada, e nunca diz de que pecado.
Ela está no Calvário em Mateus, em Marcos e em João, que a coloca junto à cruz ao lado da Mãe de Jesus. Fica sentada diante do sepulcro depois do enterro. Compra perfumes para ungir o corpo. E na manhã do primeiro dia da semana, ainda no escuro, é ela quem vai ao túmulo.
O que acontece ali está em João 20, e é a cena mais delicada do Evangelho. Ela chora, confunde Jesus com o jardineiro e pede que lhe digam onde levaram o corpo. Então Jesus a chama por uma palavra só: Maria. Ela responde em aramaico, Rabôni, que quer dizer Mestre. E recebe a missão: vai aos meus irmãos e diz-lhes que subo para o meu Pai e vosso Pai. Ela vai, e diz aos apóstolos: vi o Senhor.
O que existe hoje
A cidade dela existe, e foi encontrada. Magdala ficava na margem oeste do mar da Galileia e era uma povoação de pescadores. Em setembro de 2009, uma escavação descobriu ali uma sinagoga do primeiro século, a mais antiga já achada na Galileia, com banhos rituais, ruas, mercado e casas com piso de mosaico ao redor.
No meio do salão principal dessa sinagoga estava uma peça que impressiona: um bloco de pedra esculpido com um candelabro de sete braços, representando o Templo de Jerusalém. Ficou conhecido como a Pedra de Magdala. É uma sinagoga do tempo dela, na cidade dela, e Jesus percorreu aquela região pregando. Quem visita pisa no mesmo chão.
Na França existe outra história, e ela é tradição, não Escritura. Desde a Idade Média se conta que Maria Madalena teria chegado à Provença e passado seus últimos anos numa gruta, a que hoje chamam La Sainte-Baume, e a basílica de Saint-Maximin, ali perto, guarda o que a tradição local diz ser o crânio dela. Aquilo é um dos maiores centros de peregrinação do sul da França, e a devoção ali é antiga e viva, mas o relato vem de uma coleção de vidas de santos escrita no século XIII, e não dos Evangelhos.
Onde visitar
Magdala, em Israel, é o lugar mais impressionante e o menos conhecido dos dois. Fica a poucos minutos de Cafarnaum e de Tiberíades, na beira do mar da Galileia, no roteiro clássico de quem visita a Terra Santa. Existe um parque arqueológico aberto ao público, com a sinagoga do primeiro século e as ruas escavadas. É o único lugar do mundo em que se pode dizer, com base em escavação, que ela esteve por ali.
Na Provença, no sul da França, o roteiro da tradição reúne a gruta de La Sainte-Baume, no alto de um maciço de pedra, e a basílica de Saint-Maximin, no vale. Em 22 de julho há procissão, e a devoção movimenta a região há séculos. Vá sabendo o que é história e o que é tradição, e a visita fica mais rica, não menos.
No Brasil não há santuário dedicado a ela, mas há paróquias com o nome dela, e um município inteiro no Rio de Janeiro se chama Santa Maria Madalena, com a Paróquia matriz no coração da cidade.
Quando a Igreja a celebra
A festa de Santa Maria Madalena é em 22 de julho, e desde 2016 ela não é mais memória: é festa, o mesmo grau que a Igreja reserva aos apóstolos. A mudança foi determinada pelo Papa Francisco, num decreto de 3 de junho de 2016, que explica o motivo com estas palavras: a Igreja é chamada a refletir sobre a dignidade da mulher, sobre a nova evangelização e sobre a grandeza da misericórdia divina.
O mesmo decreto acrescentou à Missa dela um prefácio próprio, com um título antigo: Apóstola dos Apóstolos.
E vale saber o que a oração oficial daquele dia pede, porque surpreende: ela não pede perdão de pecados. Pede duas coisas, proclamar que Cristo ressuscitou e contemplá-lo no seu Reino. A liturgia do dia dela é de missão, não de penitência.
Coisas que pouca gente sabe
Ela tem um prefácio próprio na Missa, criado em 2016. Prefácio é aquela oração solene que o padre reza antes do Santo, e ter um só seu é raro: a maioria dos santos não tem.
O nome da cidade dela aparece em três línguas nos documentos antigos: Magdala, Migdal em hebraico e Taricheae em grego.
Ela é a mulher mais citada nos Evangelhos depois de Nossa Senhora, com doze passagens, e é a única que aparece nos quatro Evangelhos na cena da Ressurreição.
E há um detalhe que muda a leitura da cena do jardim: ela não reconheceu Jesus pelo rosto. Reconheceu quando ele disse o nome dela.
O que muita gente acredita e não é verdade
A pergunta que mais chega até aqui é se Maria Madalena era prostituta. A Bíblia não diz isso em nenhuma das doze passagens em que ela aparece. Não há prostituição, não há adultério, não há pecado sexual.
O erro tem autor, data e endereço. Em uma homilia pregada em Roma por volta do ano 591, o Papa São Gregório Magno afirmou que a mulher pecadora de Lucas, a Maria de João e a Maria Madalena de Marcos eram a mesma pessoa. Três mulheres viraram uma, e os sete demônios, que a Escritura liga a doença, passaram a ser lidos como vícios. A arte e a pregação espalharam isso por séculos.
A Igreja corrigiu em 1969, na reforma do calendário litúrgico, e de um modo que quase ninguém conta: sem escândalo, trocando os textos. O qualificativo de penitente saiu do livro litúrgico, e o Evangelho da mulher pecadora saiu do dia dela. Até 1962 se lia, em 22 de julho, a passagem da pecadora de Lucas 7; depois da reforma, lê-se João 20, a cena do jardim. Essa troca é a resposta mais clara que existe sobre quem ela era. E o próprio Vaticano reconhece a confusão por escrito, no documento que acompanhou a festa de 2016.
Há ainda uma segunda confusão, sobre a qual vale um aviso: a oração popular mais rezada a ela no Brasil coloca na boca de Jesus, dirigidas a Madalena, as palavras muito lhe foi perdoado porque muito amou. Essas palavras estão em Lucas 7 e foram ditas a outra mulher, a pecadora da casa do fariseu. Rezar aquela oração não é errado; saber isso é melhor.
E a terceira, bem mais recente: a de que ela seria esposa de Jesus. Isso não vem da Escritura nem da Tradição, e sim de escritos posteriores aos Evangelhos, de um romance de 2003 e de um fragmento de papiro apresentado em 2012, cuja própria pesquisadora reconheceu em 2016 tratar-se, aparentemente, de falsificação.
Como e quando rezar a ela
A oração da Missa do dia 22 de julho é a mais segura para rezar, porque é o texto oficial da Igreja, e ela serve bem em três momentos: quando alguém precisa de coragem para anunciar a fé, quando a Ressurreição parece distante e quando se pede a graça de reconhecer Jesus onde ele não parece estar, como ela o reconheceu no jardim.
Existe também a oração popular a ela, muito rezada no Brasil, que pede o perdão dos pecados, e você a encontra nesta página. Reze com o coração e com o que você agora sabe.
Uma sugestão para o dia dela: leia João 20 devagar, do começo ao fim, antes de rezar. A oração fica outra depois de se ler a cena.