Quem foi Santa Efigênia
A Oração de Santa Efigênia é procurada, no Brasil, sobretudo por quem quer uma casa. Ela é invocada por quem sonha com a casa própria, por quem quer proteger a moradia e contra incêndio, e a razão disso está na história dela, não numa fórmula.
Efigênia foi princesa em Núbia, um reino no nordeste da África, na região que hoje se liga à Etiópia. Era filha de reis, e viveu no primeiro século do cristianismo. A memória dela é em 21 de setembro.
A princesa convertida por São Mateus
A história começa com a chegada de um apóstolo à África.
Segundo o que a tradição guarda, cerca de oito anos depois da Ascensão de Jesus, o apóstolo Mateus e outros discípulos foram pregar em Núbia e não foram bem recebidos. Entre todos, quem entendeu e aceitou foi a princesa Efigênia, que passou a adorar um só Deus e deixou o paganismo.
Ela então fez uma escolha que naquele tempo tinha peso político enorme: consagrou-se publicamente a Cristo, comprometendo-se a não casar. Uma princesa que não casa é uma aliança que não se faz, um reino que não se une a outro.
E não ficou sozinha. Reuniu outras jovens que a seguiram numa vida de oração e serviço.
A casa que as chamas não consumiram
Aqui está o episódio que explica tudo o que veio depois, e que quase nenhuma página conta.
A recusa de Efigênia contrariou quem esperava aquele casamento. Segundo a tradição, o rei Hirtaco, que a queria por esposa, mandou destruir a casa onde ela vivia com as companheiras, e os soldados atearam fogo.
O relato diz que as chamas se apagaram nas paredes daquela casa e se acenderam no palácio dele, que virou cinzas.
É desse episódio que nasce o padroado dela: Santa Efigênia é invocada como protetora das casas e contra incêndio. Não é uma associação inventada depois nem um costume sem raiz. É a memória de uma casa que ficou de pé quando quiseram queimá-la.
Por que se reza a ela pela casa própria
Agora dá para entender o que o brasileiro faz quando reza a Santa Efigênia pedindo casa.
Ele está pedindo à santa cuja casa foi ameaçada e protegida. O pedido de moradia própria, de aluguel que caiba no orçamento, de financiamento que saia, se apoia nessa história.
E vale dizer com clareza: pedir casa é pedido legítimo, do mesmo tipo do pão de cada dia que está no Pai-Nosso. Ter onde morar é necessidade, não luxo.
O que a devoção pede de quem reza é o de sempre: fé, perseverança e trabalho. Não há dia certo, nem cor de vela, nem número de repetições que faça a casa aparecer. O que existe é uma santa a quem se apresenta uma necessidade concreta, com confiança.
A primeira santa africana
Este é um dado que merece destaque e quase nunca aparece.
Efigênia é apontada como a primeira cristã da Etiópia e como a primeira santa africana. Uma mulher negra, princesa, convertida por um apóstolo, responsável por espalhar o cristianismo naquela região.
Para o Brasil, isso significa muita coisa. Ela é uma das santas negras que o povo negro brasileiro tomou como seus, ao lado de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário.
As irmandades e o templo de Ouro Preto
A devoção a Santa Efigênia tem no Brasil um endereço histórico.
Em Ouro Preto, no alto da cidade, está a Matriz de Santo Antônio do Alto da Cruz, que todo mundo chama simplesmente de Santa Efigênia, construída no século XVIII. Ali funcionou a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, fundada por volta de 1717.
Aquele templo foi erguido por gente escravizada e liberta, com recursos e trabalho da própria comunidade negra, e é hoje um dos monumentos mais visitados do Brasil colonial.
Em 21 de setembro, a festa dela reúne multidão em Ouro Preto, com procissão, novena e Missa.
Quando se reza a Santa Efigênia
Reza-se pedindo casa: a primeira casa, a casa que falta, o financiamento que não sai, a mudança que não se resolve.
Reza-se pela casa que já se tem, pedindo proteção, e em especial contra incêndio, que é o padroado mais antigo dela.
Reza-se em 21 de setembro, na memória.
E reza-se por quem está sem lugar para morar, o que talvez seja a intenção que mais combina com uma santa que teve a própria casa incendiada.